sábado, 12 de setembro de 2020

100 anos do nascimento de António Fernandes Ferreira, meu pai

 

Foto de meu pai quando jovem.

     Há 100 anos, no dia 12 de setembro de 1920, nascia, na aldeia de Murtede, Freguesia de Murtede, Concelho de Cantanhede, Distrito de Coimbra, António Fernandes Ferreira, meu pai. Era filho de Joaquim Ferreira e de Maria da Assunção Fernandes. Meu avô era natural de Sazes do Lorvão, Concelho de Penacova. Minha avó, era de Murtede, de família aí residente há longo tempo.


     Joaquim e Maria se conheceram em Murtede pois meu avô foi para lá trabalhar como cocheiro para Joaquim Pereira Machado, o Jota, ou JPM, acionista de grandes empresas e que morava num palacete ainda existente, conhecido como Casa das Palmeiras, embora já deteriorado. Um dos trabalhos era levá-lo à estação de Murtede e, a partir daí, ele poderia facilmente chegar à Pampilhosa e então tudo era fácil: Coimbra, Porto, Lisboa ou mesmo Paris, nessa época a capital cultural do mundo. Minha avó trabalhava na agricultura. Em algum momento, no final dos anos 20, ou no início dos anos 30, meu avô emigrou para o Brasil, de onde não mais regressaria. Tentou convencer minha avó a emigrar também mas ela se recusou a sair de Murtede. E então meu pai morou sempre com ela, mesmo depois de casado, até também emigrar.


  Ele estudou na Escola José Pereira Machado, construída em 1927, sendo, portanto, aluno da primeira turma. Foi nessa escola também que em 1954 iniciei minha vida escolar. Ela ainda existe, mas com outro nome (EB 1). Ele terminou o primário com distinção e foi o máximo de educação formal que conseguiu atingir. Mas sempre gostou de ler, livros ou jornais, e assim falava e escrevia muito bem.  Gostava de conversar e contar causos.


    Começou como agricultor, mas as oportunidades da guerra o transformaram em comerciante de vinho. Comprava vinho na região de Murtede e embarcava na estação rumo ao Porto. O interessante é que ele não bebia vinho pois certa vez, quando criança, se embebedou, caiu de uma figueira e quebrou algumas costelas. Foi operado, e como era criança, a operação foi feita sem anestesia pois o médico julgou que o clorofórmio poderia prejudicá-lo. Nunca mais bebeu vinho, mas o provava, pois fazia parte do negócio. A bebida dele passou a ser a cerveja.


     Em dezembro de 1946, casou-se com minha mãe, Carolina Mendes, e eu nasci em dezembro de 1947. A crise econômica do pós-guerra atingiu Portugal e, aliado a outros fatores, a saída foi ele emigrar em 1952 para o Brasil, assim como meu avô que estava em São Paulo. Trabalhou como empregado de um feirante que vendia queijos, bacalhau, etc. Em algum momento mudou-se para Jundiaí, ainda como feirante. 

     Retornou para Portugal em 1955 e, de novo, agora comigo e minha mãe, regressou ao Brasil, fixando-se em Jundiaí, trabalhando como feirante de aves e ovos, e depois de verduras. Voltou para Portugal em 1974, para cuidar de minha avó que estava doente e após a morte dela, em 1977, passava tempos no Brasil e tempos em Portugal. Em 2001 veio para Natal, onde veio a falecer em 2006.


     Esse seria o currículo dele mas que não retrata quem de fato ele foi. Como já disse anteriormente, ele gostava de ler. Também gostava de discutir política. Era anticlerical, um livre pensador. Gostava de colocar apelidos nas pessoas. Minha avó e as irmãs dela eram beatas. O Beco da Portela, onde ele morava e também uma tia dele, passou a chamar de Beco da Inquisição. Quando as irmãs se reuniam era o Tribunal do Santo Ofício.


    Era antifascista. Durante a guerra ficava ouvindo a BBC, torcendo pelos aliados. E, coerentemente, anti-salazarista. De certa forma envolveu-se na campanha de Norton de Matos para presidente em 1949, contra o candidato de Salazar. Como vivia discutindo política, foi ameaçado pelo representante do regime em Murtede, para se calar. Então minha avó dizia que preferia vê-lo longe no Brasil do que morto no Tarrafal, a prisão política mais letal de Portugal naqueles dias. E, como disse anteriormente, veio para o Brasil em 1952, voltou a Portugal em 1955 e, agora com mulher e filho, retornou ao Brasil em 1956.


     Mesmo distante, continuava ligado à oposição portuguesa, sendo assinante do jornal Portugal Democrático, publicado em São Paulo. Também era assinante do Estadão e tinha dois bons motivos: o jornal era contra Salazar, tendo inclusive um articulista português, o Miguel Urbano Rodrigues, e as edições dominicais do Estadão, com páginas e páginas de classificados, eram uma fonte garantida de jornal para embrulhar os ovos em segurança.


     Graças a ele pude ver os comícios de Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Lott, em 1960, na praça da matriz, em Jundiaí. Adhemar chegou muito bêbado de outro comício que havia feito em Pirassununga, terra em que se fabrica muita cachaça até hoje. Também acompanhei as transmissões da Cadeia da Legalidade, do Brizola, visando a posse de Jango. Em 1961 e ainda jovem pude ver alguns programas Pinga Fogo, com Lacerda, Prestes, etc., logo antes do golpe de 1964. Como não tínhamos televisão sempre havia um amigo onde se pudesse ir. 


    Em 1974 fiquei sabendo da Revolução dos Cravos de manhã cedinho. Como morava em Campinas segui logo para Jundiaí, chegando ainda de manhã. E pasmem, entretido nos afazeres da horta ele não sabia de nada. Ficou paralisado uns instantes quando lhe contei. E passamos esse dia nos informando e vibrando com o acontecido. No ano seguinte, com ele em Portugal, fui até lá e conheci alguns dos amigos dele, um deles que trabalhou no Portugal Democrático. E enquanto no Brasil vivíamos os anos de chumbo, pude gozar momentos ímpares tomando café com ele e conversando com pessoas da terra, no Café Juventude, no conhecido verão quente de 1975. Isso não sai da memória.


     Entre idas e vindas, acabou por se fixar em Murtede no início dos anos 90. Tinha vendido todas as propriedades de minha avó e ficado somente com a casa, um alpendre perto da casa e a Vinha Redonda, um terreno de 30x70 onde plantava legumes, verduras, batatas, etc. e tinha árvores frutíferas. Nessa altura eu já estava casado com Lili e tínhamos dois filhos, Ana e Pedro. De dois em dois anos íamos até lá visitá-los pois ele e minha mãe queriam ver os netos, patrocinando as viagens. Conhecemos muitos lugares em que ele era um verdadeiro guia.


     Finalmente, posso dizer, com orgulho, de que ele não só me transmitiu os genes mas também um conjunto de valores que me guiam na vida até hoje. Amava seu país e sua história. Tinha consciência do mal que foram a Inquisição e a ditadura. Era um amante da liberdade.

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